Voluntariado

 

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Mudanças no conceito de trabalho voluntário
(Parte de uma entrevista com Fábio Ribas)

Antigamente, fazer um trabalho voluntário significava, na maioria das vezes, um exercício de caridade motivado por compaixão, religião ou até mesmo por interesses de promoção pessoal ou de controle social. 

O voluntariado não conseguia se desligar da tradição filantrópica assistencialista e paternalista que, por séculos, marcou a formação da cultura brasileira. 

Nas últimas décadas, uma série de transformações mundiais e locais começou a mudar esse panorama. Essas transformações envolvem fenômenos como a mudança do papel dos Estados Nacionais (que cada vez menos conseguem garantir o bem-estar social), a crise dos partidos políticos (que perdem legitimidade perante a população como mecanismos eficazes para a promoção de mudanças sociais), o fortalecimento gradual das organizações da sociedade civil (que, no Brasil, vem acontecendo desde o período do regime militar com o advento das ONGs), o acirramento mais recente de problemas sociais (desemprego, violência etc.) que passam a afetar diretamente não apenas os grupos de baixa renda, mas também os segmentos de renda média e alta, além de outros. 

Nesse contexto, o terceiro setor começa a se apresentar para os cidadãos como um espaço para uma participação mais concreta na vida da comunidade. 

As pessoas começam a perceber que, pelo voluntariado, podem não apenas ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada, mas também encontrar uma alternativa ao modelo individualista de existência (cuja incapacidade para favorecer a plena realização das potencialidades humanas fica, em tempos como os atuais, bastante evidenciada). 

Essa conjunção de fatores está desencadeando uma transformação conceitual do trabalho voluntário, ou até mesmo algo mais que o nascimento de um novo conceito: pode estar prenunciando uma transformação na cultura de participação e na autoconsciência das pessoas enquanto cidadãs. 

Hoje, dizemos que está havendo uma convergência entre os conceitos de voluntariado e cidadania, cuja faceta mais interessante seria o engajamento ativo das pessoas em trabalhos voluntários que, em sua melhor expressão, têm por objetivo promover a reintegração social dos excluídos, garantir direitos como educação, saúde etc. às pessoas deles alijadas, e assim por diante. 

A novidade é que essa forma de voluntariado faz contraponto à simples defesa de interesses particularistas e vai muito além do exercício da velha filantropia: representa um engajamento na garantia de direitos para os outros. Seria o embrião de uma cidadania ativa, em que as pessoas não se preocupam apenas com seus direitos a receber, mas expressam a vontade ética de fomentar direitos que alcancem a todos. 

Estaria aí a diferença entre uma cidadania passiva e descompromissada, e uma cidadania ativa e responsável. 

É preciso, porém, ter em mente que este é um processo em construção, cuja consolidação não é algo certo ou automático. 

Tendências contrárias a esta, que desde sempre estiveram presentes na história da sociedade brasileira, continuam a reproduzir relações de centralização, autoritarismo, clientelismo e alienação. 

Diante disto, o crescimento atual do voluntariado como prática de cidadania só se afirmará de fato se conseguir fortalecer a cultura cívica do país e, por extensão, a nossa democracia. 

Expectativas quanto ao futuro do trabalho voluntário

O trabalho voluntário (entendido da forma que defini anteriormente) como uma realidade em construção, a ser concretizada pelo esforço de cada indivíduo e pelo reconhecimento de sua importância por parte das mais diferentes organizações da sociedade: entidades sociais, escolas, empresas, governos. 

Sou otimista quanto ao futuro do voluntariado, mas enfatizo que todos têm um papel a cumprir para o fortalecimento dessa forma de cidadania em nosso meio. 

Os voluntários devem buscar uma ação mais consciente, engajada e articulada às necessidades das organizações sociais em que venham a atuar.
As entidades sociais devem ver nos voluntários um recurso precioso para a ampliação e aprimoramento de sua ação, e cuidar para estabelecer com eles um relacionamento transparente e balizado por princípios estruturados de gestão do trabalho social. 
As escolas e universidades devem incentivar o trabalho voluntário como forma de aprendizado e exercício prático da cidadania pelos alunos e pela comunidade escolar (com o que podem até mesmo revitalizar seus métodos pedagógicos). 
As empresas devem fazer do estímulo ao voluntariado social dos empregados uma forma de exercício da sua responsabilidade social corporativa e um recurso valioso para a adoção de práticas mais avançadas de gestão de recursos humanos. 

Os governos precisam reconhecer a importância do trabalho voluntário e descobrir formas de aproveitar seu potencial de colaboração para a implementação de políticas públicas na área social. 

Em todas essas frentes há muito a fazer para enraizar, desdobrar e dar uma dimensão mais ampla às novas formas de voluntariado que, por enquanto, ainda se desenvolvem de forma um tanto quanto espontânea e pulverizada por todo o país. Entramos agora numa fase decisiva desse processo.

Veja a Entrevista na íntegra
Entrevista ao Informativo Rede Vale Cidadania, da Fundação Acesita, Fábio Ribas fala sobre o conceito e a evolução do trabalho voluntário no Brasil. A entrevista foi concedida na ocasião do lançamento do livro "Mulheres Voluntárias: Experiências Empreendedoras no Terceiro Setor", publicado pela Editora Prêmio. Apesar de ser de 2003, continua atual.

Saiba mais sobre o livro "Mulheres Voluntárias: Experiências Empreendedoras no Terceiro Setor"

 

A vivência cristã se caracteriza pelo clima de convivência social em regime de fraternidade, no qual todos se ajudam e se socorrem, dirimindo dificuldades e consertando problemas.(...)
A reforma pessoal de alguém inspira confiança, gera simpatia, modifica o meio e renova os compares com quem cada um se afina.
Isolar-se, portanto, a pretexto de servir ao bem não passa de uma experiência na qual o egoísmo predomina, longe da luta que forja heróis e constrói os santos da abnegação e da caridade.

(Extraído do livro: Leis Morais da Vida, Psicografia: Divaldo P. Franco)

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